Bichos e noites: quatro haibuns
▣ A destreza dos corpos de todos os seres: sabedoria insolúvel, cadência do próprio viver. A calopsita, depois que recebe meu carinho, coça a região da cabecinha e do rosto, com sua pata agilíssima e unhas afiadas. Coça o entorno do olho, muito rápido, sem jamais perder a precisão.
a vida aponta:
sabedoria passarinha
nasce pronta
▣ Segunda-feira fria. No quintal, presenças femininas: a cadela e a Lua cheia. Tomo o último gole de chá e entro. Antes de dormir, sento-me para escrever o único haicai do dia.
a Lua cheia
veste de prata
a cadela preta
▣ Sozinho entre carros, no estacionamento do supermercado, esperando. Corpo agasalhado e mãos gélidas. Os olhos para cima: neste céu de inverno, como não?
só e circular
o urubu encera
o céu azul
▣ Levanto-me do zazen suave e concreto. Abro a porta da rua, olho para cima: muitas nuvens no céu, quase nenhuma na mente. Escuro da noite, forrado de nuvens brancas: céu roxo, remexido. E a araucária no quintal, gigante, expressiva. O vento vem e ela vai, vem e vai. Meus olhos atirados no seu rumorejar, mais uma vez, após tantas noites, e a mesma questão vital (koan?): de onde surgem esse céu, essa araucária, essas vísceras guardadas no corpo, esses olhos que enxergam céu, araucária e todo o resto? E o eco sutil, como resposta da própria vida, dizendo tudo, nada, sim, não.
pesada, balança
araucária, na noite
feito mistério